O interfone toca, o coração dispara,
Olho o visor, a respiração para.
Não é o vizinho, nem o correio,
É o medo constante, o meu receio.
O ofício que traz a marca do fim,
Aquele papel, branco e ruim.
Rezo baixo, escondo-me na sala,
Que esta visita, no tempo, se cala.
Que a porta permaneça, enfim, fechada,
E a justiça passe, sempre, ignorada.
2. O Percevejo Social
Sou apenas uma sombra no corredor,
Escondendo-me do meu credor.
A campainha é um toque de finados,
Aos meus planos, agora, adiados.
Sei que ele ronda, de pasta na mão,
Buscando a minha oficial intimação.
Eu viro o rosto, apago a luz,
A essa fuga, a consciência reduz.
Que o sol se ponha e ele não venha,
Que a minha dívida, o tempo contenha.
3. A Espera Inútil
Vivo de cortinas fechadas,
Olhando a rua com desconfiança.
Contando as horas, já cansadas,
Segurando a tênue esperança.
De que o oficial, com sua caneta,
Esqueça meu número, minha guarita.
Que a sentença, com sua etiqueta,
Seja apenas uma dor desfeita.
Mas a porta é, sempre, uma ameaça,
E a justiça, dizem, passa… e passa.
4. Ocultação
Um passo no corredor,
O peito com aperto de dor.
Não respondo, não abro, não vejo,
O Oficial de Justiça é o meu desejo…
…de nunca ter que encontrar.
Que a porta trancada, me faça invisível,
E o processo se torne, assim, impossível.
5. O Tempo e o Papel
Mário Quintana diria que o tempo não espera,
Mas eu rezo para que o oficial tenha calma.
Que ele perca o caminho, ou o mapa,
E o papel não chegue à minha palma.
A parte contrária espera, ansiosa,
Que a oficialidade seja preguiçosa.
O silêncio é meu único escudo,
Enquanto o processo grita, mudo.
