O Inventário do Invisível

 O Inventário do Invisível

Não se ama pelo que o olhar alcança na superfície,
nem pela norma técnica que o mundo tenta impor.
O amor não é diagnóstico, nem sentença, nem vício,
é o silêncio que se habita antes de se tornar clamor.

Quem cuida do abismo alheio, quem decifra o trauma,
sabe que o afeto é a única geometria sem régua.
É uma arqueologia constante, um mergulho na alma,
onde a guerra do ego, finalmente, assina a trégua.

Amar é aceitar o caos que o outro não confessa,
é ler as entrelinhas de um discurso interrompido.
Não é promessa de cura, pois o amor não tem pressa,
é a coragem de estar presente no que foi esquecido.

Nesta arquitetura de afetos, o plano é o desamparo:
reconhecer-se frágil diante da força de um laço.
Pois o amor mais profundo é aquele que custa caro,
exigindo a renúncia de quem quer o controle do espaço.

Que o amor seja, então, esse espaço de escuta,
onde o “eu” se dissolve para que o “nós” apareça.
Longe do cálculo frio, longe da estéril disputa,
deixando que a vida, em sua desordem, floresça.
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