o advogado como um historiador

 

O historiador narra o que o tempo sedimentou,
Mas o advogado narra o que o sangue ainda pulsa.
Ele abre o processo — esse livro que restou —
E traduz a história que a injustiça expulsa.

Cada petição é um capítulo de uma era,
Um recorte de vida, um grito, um documento.
Ele é o historiador que não espera a poeira,
Mas resgata o fato no calor do momento.

Nas entrelinhas do prazo e da norma fria,
Ele lê a fome, o luto, a posse e a lida.
Sua tese é a arqueologia da agonia,
Escavando o direito nas ruínas da vida.

Se a história oficial é escrita pelos fortes,
O advogado é a nota de rodapé que insiste:
Ele conta as vidas, as sortes e as mortes,
Provando ao tempo que o oprimido existe.

Ele guarda em pastas o que a memória apaga,
É o guardião de um tempo que não pode findar.
Pois cada sentença que o destino traga,
É uma nova página que ele ajuda a assinar.